Brasil tem 6.600 pessoas mortas por policiais, com alta em 15 estados; Amapá e Bahia lideram

Brasil registrou média de 18 mortes provocadas por policiais por dia em 2025, alcançando o maior nível de letalidade em 14 anos. O aumento ocorreu na contramão da queda dos homicídios e impediu uma redução ainda maior da violência no país.

23/07/2026 | Por: Noticia ao Minuto

Brasil tem 6.600 pessoas mortas por policiais, com alta em 15 estados; Amapá e Bahia lideram

Divulgação

As forças policiais brasileiras mataram 6.602 pessoas ao longo do ano passado (3,1 por 100 mil habitantes), levando o país ao maior patamar de letalidade policial em 14 anos, mostram dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A média é de 18 mortos por policiais a cada dia.

O aumento da violência policial ocorre num contexto de diminuição dos assassinatos em geral no país. Os homicídios dolosos tiveram queda de 9,8% no mesmo período -foram 36.440 vítimas registradas em 2024, e 32.914 no ano seguinte.

A violência policial foi a única estatística que teve piora no ano passado entre as cinco que compõem as mortes violentas intencionais -categoria criada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública para refletir com mais precisão a violência no país, e que inclui também homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e assassinatos de policiais.

Assim, a redução da violência no país só não foi maior devido à letalidade provocada por policiais. Em uma década -de 2016 a 2025-, um total de 60.558 pessoas foram mortas pelas forças policiais no Brasil.

O ano de 2025 foi marcado pela operação policial com o maior número de mortos na história do país. Nas primeiras horas do dia 28 de outubro, cerca de 2.500 agentes de segurança foram mobilizados para uma operação nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, para cumprir 69 mandados de prisão em 180 endereços.

Foram 122 mortos em cerca de 17 horas de confrontos praticamente ininterruptos, superando o Massacre do Carandiru de 1992. Entre as vítimas estavam cinco policiais.

Moradores recolheram cerca de 60 mortos da mata durante a madrugada que se seguiu ao fim da operação. As condições em que esses homens foram mortos não foram totalmente esclarecidas até hoje, nove meses depois. Os corpos foram deixados lado a lado na praça São Lucas.

O Ministério Público do Rio afirmou ter identificado dois casos de "lesões atípicas" entre os mortos analisados. Em um deles, havia característica de disparo de arma de fogo a curta distância. No outro, o corpo apresentava lesão por arma de fogo disparada à distância e também ferimento por decapitação, "produzido por instrumento cortante ou corto-contundente".

Promotores apresentaram ao menos oito denúncias envolvendo 19 policiais militares. As acusações incluem peculato, violação de domicílio, insubordinação e uso inadequado de câmeras corporais.
Apesar da operação com maior número de mortos ter ocorrido no Rio de Janeiro, o estado não está entre aqueles com aumento mais expressivo da letalidade policial.
Segundo os dados do Anuário, as forças policiais fluminenses deixaram 798 mortos ao longo do ano (ou seja, a Operação Contenção foi responsável por quase 15% das mortes), alta de 13% em relação a 2024. Com taxa de 4,6 mortos pela polícia para cada 100 mil habitantes, o Rio tem a sexta maior letalidade policial em termos proporcionais.
O Amapá foi o estado com a maior taxa de letalidade das forças de segurança: os policiais deixaram 17 mortos para cada 100 mil habitantes, o mesmo índice do ano anterior. Foi também o estado mais violento do país, com taxa de 42,5 mortes violentas intencionais.
As polícias da Bahia foram responsáveis pela morte de 1.570 pessoas no ano passado -14 a mais do que em 2024-, o maior número absoluto de mortes em todo o país.
Embora as maiores taxas de crescimento da violência policial tenha se concentrado no Nordeste, esse foi um fenômeno disseminado em todo o território nacional. Apenas dez estados tiveram redução nas mortes por intervenção policial e dois tiveram estabilidade -Amapá e Bahia, com as maiores taxas. Ou seja, uma maioria de 15 unidades da federação teve piora nos índices de violência estatal.
Rondônia teve o aumento mais expressivo, embora isso tenha ocorrido sobre uma quantidade pequena de mortes. Foram 47 mortos pela polícia em 2025, ante 8 no ano anterior -alta de 485%. Maranhão (alta de 84%), Alagoas (+54,6%), Sergipe (+32,6%) e Pernambuco (+31,7%) também tiveram os aumentos de letalidade mais expressivos.
Em São Paulo, que vive um aumento da violência policial desde 2023, foram 835 mortos por policiais no ano passado -alta de 2,5%, alcançando o índice de 1,8 mortos a cada 100 mil habitantes.
"Os elevados níveis de uso da força letal por agentes de segurança e a cooptação de agentes públicos pelo crime organizado não constituem problemas independentes", escreveu o pesquisador Leonardo de Carvalho Silva, do Fórum, num dos textos publicados pelo Anuário.
"Corporações permeáveis à corrupção tornam-se menos capazes de controlar o uso legítimo da força, favorecendo a reprodução de execuções ilegais, fraudes processuais e obstrução de investigações", acrescentou.

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