As tensões eclodiram no mês passado, quando Trump utilizou as redes sociais para criticar o papa. Ele acusou o pontífice de ser complacente com o crime e o terrorismo devido às críticas do Vaticano às políticas de imigração e deportação do governo americano, além da oposição de Roma à guerra no Irã. Em resposta, Leão afirmou que "Deus não escuta as orações de quem promove a guerra".
O embate escalou após Trump publicar uma imagem que parecia compará-lo a Jesus Cristo — postagem removida após uma forte reação negativa. O presidente se recusou a pedir desculpas ao papa e tentou justificar o ocorrido alegando que acreditava que a imagem o representava como um médico.
Rubio defendeu que as críticas recentes de Trump estão fundamentadas na oposição do presidente à possibilidade de o Irã obter armas nucleares que, segundo ele, poderiam ameaçar milhões de católicos e cristãos.
"Trump não entende por que alguém — deixando o papa de lado — acharia que é uma boa ideia o Irã ter uma arma nuclear", disse Rubio a jornalistas na terça-feira, 5, na Casa Branca.
Leão nunca defendeu o armamento nuclear iraniano. Ele reiterou que a Igreja Católica "há anos se posiciona contra todas as armas nucleares, então não há dúvida sobre isso".
Na noite de terça-feira, 5, após Trump voltar a acusá-lo de concordar com o Irã tendo uma arma nuclear, Leão reagiu. "A missão da Igreja é pregar o Evangelho, pregar a paz. Se alguém quiser me criticar por anunciar o Evangelho, que o faça com a verdade", disse.
Embora tenha reconhecido a tradição da "guerra justa" e o direito de defesa das nações, Leão ressaltou que, na era atômica, "todo o conceito de guerra precisa ser reavaliado". "E eu sempre acredito que é muito melhor entrar em diálogo do que buscar armas", afirmou.
Rubio frequentemente é escalado para suavizar ou explicar a retórica agressiva de Trump. Além do Vaticano, o presidente também criticou Giorgia e outros aliados da Otan pela falta de apoio à guerra no Irã, anunciando planos para retirar milhares de soldados da Alemanha nos próximos meses.
Vaticano está disposto a manter o diálogo
Ex-diretor da agência Ansa e ex-correspondente em Washington, Giampiero Gramaglia, afirmou não esperar grandes resultados da visita de Rubio para as relações com a Itália ou com o Vaticano. Ele e outros analistas italianos acreditam que Rubio estaria, na verdade, tentando fortalecer sua própria imagem política e os laços com o papa, visando ambições pessoais, como as eleições legislativas de meio de mandato e a disputa presidencial de 2028.
"Duvido que Rubio tenha o papel de conciliador para Trump", disse Gramaglia à Associação da Imprensa Estrangeira na Itália. "Tenho a percepção de que a missão de Rubio é mais sobre ele mesmo" e suas ambições políticas como um proeminente republicano católico.
O padre Antonio Spadaro afirmou que o objetivo de Rubio não era "converter" o papa para o lado de Trump. Em vez disso, Washington teria passado a reconhecer - implícita, mas claramente - que a voz de Leão "tem peso no mundo e não pode simplesmente ser descartada".
"A situação criada pelas declarações do presidente exigiu uma intervenção direta e de alto nível, conduzida na linguagem apropriada da diplomacia: uma correção semântica a uma narrativa de conflito frontal com a Igreja", escreveu Spadaro em um ensaio publicado nesta semana.
A especialista em história contemporânea Farian Sabahi, de origem iraniana, disse que Giorgia deveria condenar a guerra de forma mais enfática para posicionar a Itália favoravelmente em uma futura reconstrução das relações com o Irã. Atualmente, a Itália é o segundo maior parceiro comercial da União Europeia com o Irã, atrás apenas da Alemanha, operando dentro do regime de sanções da UE.
"De um ponto de vista puramente oportunista, seria até aconselhável condenar a agressão israelense-americana justamente para dar às empresas italianas a oportunidade de fazer negócios, já que há muitos outros atores internacionais prontos para entrar no mercado iraniano", disse Farian.
Cuba também está na agenda
Rubio disse que outros temas, além da guerra no Irã, compõem a pauta de sua visita ao Vaticano, incluindo Cuba. A Santa Sé manifesta profunda preocupação com as ameaças do governo Trump de possíveis ações militares no país, especialmente após a deposição do ditador venezuelano Nicolás Maduro, ocorrida em janeiro.
Trump tem afirmado com frequência que Cuba pode ser o "próximo alvo" e chegou a sugerir que, após o fim encerramento da guerra com o Irã, os ativos navais mobilizados para o Oriente Médio poderiam retornar aos EUA passando por Cuba.
Filho de imigrantes cubanos, Rubio mantém uma postura historicamente rígida em relação ao regime de Havana. "Demos US$ 6 milhões em ajuda humanitária a Cuba, mas obviamente eles não nos deixam distribuí-la", disse. "Estamos distribuindo por meio da Igreja. Gostaríamos de fazer mais."