Rio – Pedestres e motoristas que precisam passar pela Rua Santa Luzia, no Centro do Rio, enfrentam há pelo menos dois meses os transtornos provocados pela instalação de uma gigantesca estrutura de climatização na faixa lateral esquerda da via, na esquina com a Avenida Graça Aranha. A reportagem de O DIA esteve no local nesta quarta-feira (24) e ouviu dezenas de queixas ao longo da manhã. Além do barulho intenso e contínuo, a circulação, a segurança e a limpeza do espaço foram comprometidos, de acordo com os relatos.
Os equipamentos foram colocados pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), em julho, como parte do plano de substituição do sistema de climatização do prédio da instituição, na Avenida Graça Aranha 1, a cerca de 50 metros da histórica Igreja de Santa Luzia. A operação das duas máquinas, no entanto, tem causado grande impacto no entorno principalmente por causa dos ruídos.
Os aparelhos, cercados por grades, ocupam um espaço de cerca de 5 metros de largura por 20 de comprimento, dimensão semelhante a de um ônibus.
O taxista José Carlos Santos, 79 anos, que mantém ponto fixo na Avenida Graça Aranha, diz que em 57 anos de profissão nunca viu um equipamento desse porte instalado por tanto tempo em uma rua de grande movimentação. "Além do barulho, atrapalha o trânsito e a nossa rotina de trabalho, porque não dá mais para parar e pegar passageiros. Isso já está ali há pelo menos dois meses e nem sabemos por quanto tempo mais vai durar. Está difícil", reclama.
Paulo César, 46, que faz entregas de pães na região, também se queixa: "Estou aqui a semana toda. Desde que colocaram esse equipamento, não tivemos mais sossego. O barulho fica o dia inteiro, é perturbador."
Em frente aos refrigeradores, do outro lado da rua, funcionam pelo menos dez barracas de camelôs, trabalhadores que passaram a ter que conviver diariamente com o som.
A vendedora Maria Anita, 63, que trabalha no local há 15 anos, diz que passou a sentir fortes dores de cabeça desde a instalação. "Eu moro em Duque de Caxias e venho para cá todos os dias. Chego às 7h e já está aquele barulho. Saio às 16h daqui e chego em casa só às 18h. Quando entro em casa, já estou com dor de cabeça. A gente não tem paz. Além da saúde, também atrapalha as vendas, porque os clientes não conseguem nem conversar direito para perguntar sobre os produtos", critica.
A advogada Juliana Bittencourt, 50, também não esconde a insatisfação. "Eu trabalho no Centro, mas não costumo passar por essa rua. Só de ficar aqui alguns minutos já me senti incomodada. Se está difícil para mim, imagina para quem trabalha aqui todos os dias?", questiona.
Morador de São Gonçalo, o ambulante José Carlos, 58, que possui uma barraca na Santa Luzia, lamenta a falta de comunicação por parte da Firjan. "Ninguém avisou nada, nem deram satisfação sobre quanto tempo vai ficar. Só torcemos para que acabe logo."
Sujeira e restrição em via pública
Além do barulho, outros problemas também são relatados. Dentro do espaço cercado, a reportagem encontrou água acumulada e folhas, o que preocupa trabalhadores da limpeza urbana. "Não dá para fazer manutenção ali dentro. Fica lixo acumulado, o que pode atrair ratos. A gente faz o que é possível, mas sabe que poderia ser melhor se não tivesse aquilo lá", disse um gari da Comlurb, que prefere não se identificar.
Um ambulante, que também pediu para não se identificar, afirma ainda que usuários de drogas já tentaram roubar cabos expostos e que o tamanho dos equipamentos favorece as ações criminosas: "É um espaço onde ladrões podem se esconder e fazer de pedestres ou motoristas parados no sinal possíveis vítimas."
Porteiros da região dizem que vigilantes foram contratados para reforçar a segurança em frente ao prédio da Firjan durante a noite. Para inibir furtos, também foram instaladas concertinas, um tipo de arame farpado em espiral, em toda a área cercada.
Outro ponto citado é a restrição para carga e descarga. O entregador Cleandro Marques trabalha com um caminhão fazendo entrega de alimentos. Ele observa que a instalação impossibilita a realização do serviço em prédios do trecho da via. "Não tem como fazer entrega ali com esses refrigeradores ocupando o espaço. O barulho já incomoda, mas além disso atrapalha diretamente o nosso trabalho", diz.
De acordo com decreto publicado no Diário Oficial do município em 9 de maio deste ano, o uso do espaço foi autorizado para a troca da climatização do prédio da Firjan. O prazo estabelecido é de 1º de junho de 2025 a 31 de janeiro de 2026.
Remoção só em 2026
Por meio de nota, a Firjan informou que está realizando obras de modernização do sistema de climatização da sede e a remoção está prevista até o primeiro trimestre de 2026. Também garantiu que a operação acontece após autorização da prefeitura (Leia a nota na íntegra abaixo).
A reportagem de O DIA entrou em contato com diversos órgãos públicos para buscar respostas sobre as reclamações mencionadas pelos entrevistados.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (Smac) disse que está ciente do caso e que já inseriu na programação deste mês a realização de vistoria no local. "Uma equipe da Smac fará a medição dos equipamentos, a fim de tomar as devidas providências e, se constatado o excesso de barulho, a empresa será notificada a tomar as medidas necessárias para se adequar à lei", informa a nota.
A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) explicou que como o equipamento não está posicionado em cima da calçada, o órgão indicado para falar sobre o tema é a CET-Rio, que comunicou que o uso do espaço foi autorizado pela Portaria TR/SUBG/CRV nº 2.148, de 9 de maio de 2025, "em área anteriormente utilizada como estacionamento, localizada fora da caixa de rolamento, portanto sem interferência no trânsito local".
"O trecho isolado também não prejudica a travessia de pedestres no local, estando o passeio preservado", diz um trecho da nota da CET-Rio.
A reportagem tentou contato, ainda, com a Subprefeitura do Centro. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno, e o espaço permanece aberto para eventual manifestação.
Confira nota na íntegra da Firjan:
"A Firjan está realizando obras de modernização do sistema de climatização de sua sede. Por essa razão, foi instalado provisoriamente, no lado externo do prédio, um equipamento de climatização que ocupa pequeno trecho da faixa de estacionamento na Rua Santa Luzia. O funcionamento está autorizado pela Prefeitura do Rio e pela CET-Rio, e a remoção está prevista até o primeiro trimestre de 2026."